20160928

Jorge Lucio de Campos


Nove Poemas / Nine Poems
(translated by the author)


BUKOWSKI

Uma democracia de pó
constrange a ruptura

Um processo de pó
persegue a urgência

Um delírio de pó
um país cotidiano



O MELHOR OESTE

a Eric Fischl

Ela sabe o
quanto gosto

de flamingos
afilados –

de ter onde
me esconder

: uma praia,
encosta ou

bosque –
um lugar

onde se
possa ler –

em voz
bem alta –

um novo
dia de sol



SOL QUALQUER

a Vasko Popa

Não vem
de mim

o que me
anula.

O traço que
me crava

em algo que
me cruza

(e, sem cessar
me ajusta)

me fabrica
fora.

Mesmo assim
deslizo entre

meus dedos.



FALAR E OUVIR

O amor é assim
: um verde-mofo

incandescente que
mistura códigos

e faz da aurora
um xale negro

muito forte –
bem a sós



INCANDESCÊNCIAS

O desejo me confunde
tão disposto a nada

A carne do mundo −
o cabelo descuidado

a testa guarnecida
o nariz de corredeiras –

por favor, trace uma
linha em meu costado

de um lado ao outro
agora, a cicatriz no

olhar, a emoção aberta
a luz da voz tremida

a vida que já foi gentil −
brilhei no escuro ontem

um sonho enviesado




SUCÇÃO

a Helmut Newton

1

Desabar será assim: um cut up? Primeiro os dentes, agora os pelos: tudo cai, se descola, despenca.



2

Isso já não cabe aqui. Sentir o que ao engolir o próprio gosto?


3

É como ser coisa alguma. Prefiro deleitar-me, desolar-me, cavalgar no grelo da lua.



4

Outros dias surgirão desse mau hálito.


5

Lamento ser isso: um detalhe bege no maleiro do closet.


6

Já não capto o flou de losangos que a angústia busca.


7

Viro, no fundo, algo a mais que mim mesma.


8

Pois bem: um farol e um calcanhar de violetas.


9

Polainas não se ajustam à aura das lágrimas


10

Eis que me sinto esquiva porosa que rend omem order.


11

Basta que os olhos se abram e o mundo se encaixe.



12

Na voragem de braços, raspar a boceta ao meio-dia.




TRÓPICOS

Sinto nojo
dessas noites
quentes –

coalhadas de
calmarias –

em que furos
na parede

são túneis
do tempo



TEORIA DO BELO

Desejo gesta
um tom siena
em tua pele

Eu, embaixo
envergonhado

Tu, em cima
seios cheios
de perdizes



FILIGRANAS

1

O poeta
dorme –

por temer
seu sono

apressamos
o poema


2

No espelho
os olhos
são dedos


3

De resto
o olhar

prostituto
se afasta

da boca

BUKOWSKI

A democracy of dust
constrains the rupture

A process of dust
pursues the urgency

A delirium of dust
a quotidian country



THE BEST WESTERN

for Eric Fischl

She knows how
much I like

sharp
flamingos −

a place to
hide myself

: a beach or
hillside

or forest –
a place

where I
can read –

in a
loud voice –

a new
sunny day



ANY SUN

for Vasko Popa

It doesn´t come
from me

what nullifies
me.

The trace that
nails me

in something that
crosses me

(and without
ceasing adjusts me)

that forges me
out of myself.

Even so
I slide between

my fingers



TO SPEAK AND TO LISTEN

Love is so:
a glowing

green mold that
mixes codes

and makes dawn
a black shawl

very strong −
too lonely



INCANDESCENCES

The desire confuses me
so willing to nothing

The flesh of the world −
the shaggy hair

the protected forehead
the nose of rapids

Please draw a line
in my back now

one side to the other −
a scar on the look

the open emotion
the light of shaky voice

the life that was already
kind − I did glow in

the dark yesterday
a skewed dream



SUCTION

for Helmut Newton

1

To pull down will always be like this: a cut up? First the teeth, now the hair: everything falls, everything is off, everything collapses.


2

This no longer fits here. What I feel when I swallow my own taste?


3

It’s like not to be anything. I prefer to delight myself, to dismay myself, to ride on the clitoris of moon.


4

Other days will come from that bad breath.


5

I’m sorry to be so: a beige detail in the closet luggage locker.


6

I can’t capture the fading lozenges that the anguish search.


7

Deep down, I turn something more than myself.


8

Well: a lighthouse and a heel of violets.


9

Gaiters do not fit the aura of tears.


10

That is I feel evasive and porous and wanting to bite myself.


11

It’s sufficient that the eyes are opened and the world fits them.


12

In the maelstrom of arms, to shave the pussy at noon.



TROPICS

I feel disgust
for these
hot nights

curdled
lulls –

where holes
on the wall

are time
tunnels



THEORY OF BEAUTY

The desire conceives
a sienna tone
in your skin

I under you
ashamed

You over me −
with your breasts
full of partridges



FILIGREES

1

Poet
sleeps –

Fearing
his sleep

we hurry
the poem


2

Eyes are
fingers in
the mirror


3

Moreover
a prostitute

looks move
away from

the mouth



Jorge Lucio de Campos was born (1958) in Rio de Janeiro, Brazil. He is an Associate Professor of Philosophy and Theory of Communication and Culture at Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI) of the Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). As a poet, he published the books Arcangelo (EdUERJ, Rio de Janeiro, 1991), Speculum (EdUERJ, Rio de Janeiro, 1993), Belveder (Diadorim, Rio de Janeiro, 1994), A dor da linguagem (Sette Letras, Rio de Janeiro, 1996), À maneira negra (Sette Letras, Rio de Janeiro, 1997) e Prática do azul (Lumme, São Paulo, 2009). His poems, essays and interviews circulate in various printed and virtual magazines and sites. He participated of the anthology (organized by brazilian poets Claudio Daniel and Frederico Barbosa) Na virada do século: poesia de invenção no Brasil (Landy, São Paulo, 2002).
 
 
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